Na estrada, a caminho de Ushuaia.

Partimos de Rio Gallegos, na Província de Chubut, deixando para trás dias de ventos assustadores na estrada e na cidade. Também fizemos a primeira revisão do nosso veículo numa concessionária Ford da cidade, em Rio Gallegos o carro completou 10 mil quilômetros rodados. A maior preocupação foi a troca do filtro de ar, foi com a tempestade de areia que pegamos no caminho o filtro ficou bem sujo. A partir dali a situação climática ficou mais favorável, não enfrentamos mais aqueles ventos que parecia segurar o nosso motorhome com as mãos. Nosso problema agora passou a ser a papelada e as filas nas fronteiras do Chile e da Argentina. Geograficamente é uma situação delicada, você sai da Argentina, preenche todos os documentos e percorre alguns quilômetros e entra no Chile. Agora a situação se inverte, você sai do Chile, entra na Argentina e preenche toda a papelada novamente. Nas duas fronteiras o procedimento é parecido, são 3 etapas, primeiro é necessário passar pela polícia, o segundo passo a Aduana e por último o controle de entrada de produtos e alimentos. Existe um formulário para cada viajante e outro para o veículo.

                                 

 No caso do motorhome é certeza a polícia entrar no veículo e pedir para abrir a geladeira, vegetais e legumes são expressamente proibidos e ficam ali. Os produtos industrializados fechados podem passar. Queijos e carnes também não passam, eles são rigorosos com a entrada de alimentos nos dois países, pois esta região é produtora de muitos itens alimentícios e qualquer praga ou doença pode fazer um grande estrago.  Vale uma dica, se você está de motorhome ou até mesmo de carro, coloque SIM na pergunta do formulário onde diz se você está trazendo alimentos, pois se a polícia pegar algum produto e você colocou NÃO no formulário, aí sim você terá problemas. Se eles acharem alguma coisa vão examinar e se estiver OK deixam passar. Se houver dúvida se o que você está trazendo é permitido ou não eles irão te dizer na hora. Chegamos ao estreito de Magalhães, um serviço de balsa transporta os veículos de um lado para o outro continuamente, só encerra às 10 da noite, quando sai à última balsa vinda da Terra do Fogo para o continente.

          

Quando chegamos ao estreito o mar estava inacreditável, ondas e muita correnteza e fiquei preocupado de como seria o embarque naquelas condições. Como surfista de longa data, sei bem o que é um mar revolto. A balsa se aproximou e baixaram a grande rampa de desembarque. Os caminhões desciam com a balsa se movendo de um lado para o outro, a situação era assustadora para nós que não estávamos acostumados com aquela cena. Para os chilenos parecia ser uma situação corriqueira, pois o desembarque seguia normalmente. Encaramos a situação e entramos na balsa, mas a travessia foi bem agitada, uma corrente muito forte com ondas de 2 e 3 metros movimentava a balsa num sobe desce intenso, deixava todos apreensivos. A travessia é rápida, apenas 25 minutos mais as ondas e a correnteza foram de arrepiar. A Letícia ficou sentada dentro da balsa aterrorizada com o tamanho das ondas no estreito.

                

Cruzamos sem problemas e pegamos a estrada, logo início uma placa já mostrava: “Bienvenidos a Tierra Del Fuego”!  Sentimos uma alegria estarmos entrando naquele pedaço de terra tão distante e envolvente para aventureiros e viajantes. Passamos pelas fronteiras e depois de todos os trâmites feitos duas vezes seguimos para a cidade de Rio Grande. Almoçamos num hotel na praça central da cidade e seguimos viagem.  Aos poucos as paisagens foram se transformando, o que era o grande deserto patagônico foi se transformando em florestas e montanhas deslumbrantes. De repente o cenário foi ficando branco e aos poucos para onde olhávamos estava coberto de neve.

            

Foi um choque, pois não esperávamos ver neve nesta época do ano, mas foi espetacular. As árvores cobertas de neve, as estradas tomadas por neve, tudo branco. Ficamos um pouco preocupados pela perda de aderência dos pneus, afinal nosso motorhome não estava preparado para este tipo de terreno e tivemos que dirigir com muita cautela. Fomos parados pela polícia da estrada que nos perguntou se os pneus estavam com uma espécie de silicone que aumenta a aderência e eu disse que nem conhecia o produto. A policial nos orientou para que fôssemos bem devagar, pois a pista estava “resbaladiza”(lisa em Castelhano). Ao lado da estrada uma pickup Ranger capotada já mostrava que a situação estava realmente perigosa. Depois de 100 km chegamos ao Lago Fagnano, o quinto maior lago da América do Sul, um dos grandes atrativos desta região. Saímos da estrada e seguimos bordeando o lago, uma imagem belíssima da imensidão do lago envolto a montanhas e vegetação, tudo coberto de neve fresca.

              

Ficamos maravilhados com todo aquele cenário de inverno em pleno maio.  Conhecemos o lago, colocamos a mão na água para sentir a temperatura e beirava os 3 graus, muito gelada. Segundo os moradores locais nem no auge do verão é possível banhar-se no lago. Entramos num camping a beira do lago e em pouco tempo apareceu duas pessoas para nos atender. Emanuel, filho do proprietário e um funcionário nos convidaram para conhecer uma cabana por dentro.

             

             

Fomos ver o que havia e para nossa surpresa dentro da pequena casa uma maquete com um trenzinho elétrico, com montanhas, lagos, árvores, uma pequena cidade e tudo funcionando. Com certeza este trem deve ser um delírio para as crianças que passam pelo lago. Ao lado da casa um carro vermelho e abandonado chamou nossa atenção. Perguntamos ao Emanuel o que significava aquele carro parado ali e ele nos explicou que em 2008 passou pelo camping um italiano que havia comprado aquele carro no Alaska por 400 dólares e veio dirigindo até Ushuaia, durante um ano.

            

Sentimos uma empatia pelo italiano de nome Filippo sem mesmo conhecê-lo, por ter feito o mesmo que nós faríamos agora. Filippo chegou ao camping, conversou com o dono e pediu para deixar o carro ali para sempre, ele concordou e agora chama a atenção de quem passa pelo camping. Deixamos o camping e paramos para almoçar no Restaurante e hotel Kaiken, na margem esquerda do lago. Ótimas instalações e uma restaurante excelente, se você passar por ali na hora do almoço não deixe de saborear um salmão com purê de papas. Junto com o almoço você desfruta uma bela vista do lago.

              

Aproveitamos o almoço naquele domingo de Dia das Mães, Letícia com saudades da filha e ficamos pensando que seria muito legal se nossas mães estivessem com a gente desfrutando aquele momento gostoso. Seguimos adiante pela estrada, muitos quilômetros com o lago a nossa direita e aos poucos iniciamos a subida da serra. Outro lago desponta na paisagem, agora é o Lago Escondido, cercado por picos rochosos e vegetação densa. A estrada fica cada vez mais sinuosa e estreita, ao lado um grande penhasco que não admite erro dos motoristas. Naquele dia menos ainda pela quantidade de neve na estrada.

            

Passamos pelo Paso Garibaldi, um mirante imperdível com a visão do Lago Escondido e todas as montanhas nevadas ao redor. Enquanto estávamos parados apreciando a vista vimos dois ciclistas pedalando com suas bikes carregadas, alforjes e outros equipamentos. A subida é íngreme, e mal comporta dois veículos. Os dois se arriscavam no meio de caminhões e carros. Aos poucos eles chegaram até nós, encapuzados, com capas, e ainda sentindo muito frio, pois naquela hora a neve ainda começou a cair. Fizemos algumas fotos deles e perguntamos de onde eles vinham. A resposta foi de bate pronto: Do Alaska ! Estavam completando 11 meses de estrada, cruzando as Américas. Não sei o porquê, mas por estarmos fazendo aquele roteiro, Ushuaia ao Alaska, encontramos sempre pessoas ou situações que nos remetem ao nosso projeto.

         

 O casal era francês mas falava pouco de espanhol e quase nada de inglês. Peguei o e-mail deles para enviar as fotos que havia tirado na subida e na parada e nos despedimos pensando que a nossa proposta era desafiadora, mas no caso deles o desafio era muito maior.  Voltamos para o carro, um frio muito intenso, neve caindo, ligamos o aquecedor e ficamos imaginando os franceses que teriam que pedalar mais 40 quilômetros até Ushuaia debaixo de neve e frio e já estava anoitecendo.

            

Continuamos nossa jornada e mais alguns quilômetros avistamos e de longe avistamos o portal de entrada da cidade, duas torres de madeira com Ushuaia escrito na vertical. Confesso que ficamos emocionados, depois de 45 dias de viagem, estamos no extremo sul da América, na cidade que identifica o início da nossa travessia.

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Category : Diário de Bordo

19 Comentários → “Na estrada, a caminho de Ushuaia.”


  1. Isabel

    2 Anos ago

    Não sei se fico contente, ou preocupada…óh! céus…rsrrsrs….coragem, sigam em frente! beijos!

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    • eduardo

      2 Anos ago

      Pode ficar tranquila D. Isabel, nossas empreitadas são calculadas e com segurança, jamais colocaria nossas vidas em risco por descuido.
      Abraços

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  2. Ronaldo-National Geographic Brasil

    2 Anos ago

    Grande Pepper!
    O carrão parece um hotel 5 estrelas perto do velho e bravo Bandeirante.
    Boa viagem, brother!
    Devagar e sempre adiante, rumo Norte!!!!!!!!!

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    • eduardo

      2 Anos ago

      É isso Ronaldo, estamos conhecendo um pouco mais deste nosso planeta Terra, a cada dia eu me surpreendo mais com as paisagens visitadas !

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  3. Roberto Colaço

    2 Anos ago

    Coincidência, eu também, quando acho que o desafio é muito grande para a minha casa rodante, lembro dos viajantes de bike.
    Um abraço a vocês y suerte a nosotros todos
    Colaço (do mundo virado)

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  4. Vera Antunes

    2 Anos ago

    Olá Leticia e Edu,

    Muito legal, estou adorando saber notícias suas !!

    Boa viagem sempre !

    bjs

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  5. Helinho Caloi

    2 Anos ago

    Faaaala Pimenta !!!!!!!
    Muito legal o que vcs estão fazendo, abraços para vc e Letícia.
    Boa sorte e siga e frente !

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  6. Monica

    2 Anos ago

    Amigos estamos adorando acompanhar esta travessia, cada matéria uma aventura, fotos lindas e muita emoção….ahhh ficamos aqui babando, PARABÉNS!!!!! Saudades família Antunes

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  7. Juliana

    2 Anos ago

    Oi Pimenta blzinha?

    Loucura loucura loucura…….meu sonho é ver a neve de perto!!!

    Sempre acompanho voces…

    Abçs

    Ju e tilt

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  8. Marcelo (marmita ) de Sampa

    2 Anos ago

    Show de bola em Comandante agora começa a Tragetória rumo ao Alaska mas de qualquer forma deve ter sido Grande a emoção de ver aquela placa escrito USHUAIA é de arrepiar . no mais boa Subia BOA SORTE !!!!!!!!!!!

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    • eduardo

      2 Anos ago

      Beleza Marcelão !!!
      Com certeza foi emocionante chegar em Ushuaia e registrar o momento !
      Foi ainda melhor quando chegamos no final da Ruta #, na Baia de Lapataia e vimos escrito Alaska 18 mil kms !!!
      Abraço

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  9. Thiago Leon

    2 Anos ago

    Parabéns ao Eduardo e a Letícia pelo projeto, além da disposição e exigido muita coragem para enfrentar o novo. Vocês me inspiram a fazer o mesmo daqui alguns anos!

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  10. Cesar Bonadia

    2 Anos ago

    Ola,
    Somos Cesar e Dani, moramos em Campinas.sp, já acostumados a aventuras e viagens em motor home. Temos um F.4000 e estamos usando os comentários desta sua viagem para orientações também. Nosso motor home não é 4×4. Estaremos partindo para Ushuaia em novembro próximo. Já estivemos em Bariloche partindo de Campinas/sp, numa viagem que durou 3 meses numa Safari. Sul do Brasil, Uruguay entrando na Argentina pela atravessia de barco na cidade de Colonia no Uruguay. Desejo que comente sobre algumas das dificuldades com o frio, agua congelada, com o motor do F4000. Conte sempre com a gente, em se precisando de ajuda também. Otimas viagens. Cesar e Dani

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  11. CARLOS NOETOLD

    2 Anos ago

    Chegar ao Ushuaia realmente é emocionante.

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  12. João Leopold

    2 Anos ago

    Eduardo e Letícia – Voltei ao bagageiro do motorhome de vocês depois de um intervalo. Vocês já devem estar do outro lado do mundo e eu com vocês neste fim do mundo.

    Maravilhoso o relato de vocês e mesmo que pessoalmente já estive aqui parece que através dos seus olhos tudo ficou diferente e ainda mais bonito.

    Sinto falta dos detalhes do dia a dia, como mencionei a um amigo alpinista sobre outra viagem que estou fazendo com o Lionel Terray na primeira conquista de um cume acima dos oito mil metros o Annapurna. “… No momento estou me acercando do Annapurna com o Lionel, interessante ele não mencionar as coisas do cotidiano e sim só o grande alvo, para mim o grande alvo é mais fácil do que vencer os percalços do dia que levam a ele. Quando a Iara e eu estivemos no El Tatio se eu apenas descrevesse o que via ou os microclimas que aos lados dos gêiseres propiciavam a formação de vida mais precária que meus olhos já viram seria interessante, agora descrever a enorme dificuldade de num frio de menos trinta graus a Iara urinar seria a nossa realidade junto a esta natureza…”.

    Não sei Eduardo e Letícia se mais adiante vocês irão dedicar alguns parágrafos para isto ou então um capítulo inteiro. Então por favor, em nome deste viajante façam isto, me deixem saber as dificuldades e as alegrias que o motorhome apresentou e como fizeram para sana-las, as alternâncias de humor no relacionamento da Letícia e você vivendo em um ambiente pequeno embora o quintal da casa fosse gigantesco.

    Neve na Terra do Fogo, vocês foram predestinados a ver belezas inigualáveis!

    João Oliveira Leopold
    joaoleopold@minon.com.br
    http://joaoleopold.blogspot.com/
    Fone 55 41 9991-3139

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  13. Marina

    1 Ano ago

    Boa noite casal.
    Nós estamos na estrada e estamos programando nossa chegada a Ushuaia em abril de 2013. Li o relato mas gostaria de confirmar a data que vocês estiveram no fim do mundo. Foi em maio mesmo? Pois segundo as informações que coletamos, dizem que as estradas estão fechadas por nevascas fort’issimas. Muito obrigada pela atenção e boas viagens!
    Marina

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    • Eduardo Issa

      1 Ano ago

      Olá Marina, acredito que abril ainda seja um mês confortável para chegar a Ushuaia, mas o frio já está bem intenso nesta época. Nos meses de inverno no sul da Argentina os ventos são fortes, é necessário muita atenção nas estradas. O consumo do veículo aumenta viajando contra o vento mas a favor também gasta menos. A vantagem de ir para Ushuaia em ábril é que as estradas estão bem mais tranquilas nesta época, ao contrário do verão que a quantidade de turistas é bem grande. Veja nosso boletim sobre Ushuaia que terá muitas informações interessantes.
      Abraços e boa viagem !

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  14. Galera, fomos de astra 95, um carro bem simples, ao Ushuaia em janeiro/2010 sem problemas. Quero dizer que não precisa ser um 4×4. Talvez abril já tenha bastante neve na estrada, mas nada que corrente não resolvam…

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    • Eduardo Issa

      1 Ano ago

      Olá Diana, é verdade mesmo, no verão as estradas que vão até Ushuaia são muito boas, conheço pessoas já fizeram esta viagem de Fusca e de Uno Mille. Não importa o veículo, legal mesmo é meter o pé na estrada e se aventurar por nosso continente que é simplesmente fantástico ! Nos meses de inverno no sul da Argentina você pode se surpreender com tempestades de vento e às vezes de areia. Tivemos nosso para-brisas quebrado numa tempestade de areia. O trecho de cascalho após o Estreito de Magalhães depois de uma chuva é uma lama e com certeza o seu Astra sem tração pode não passar. Outra coisa que você desconhece é o Black Ice, quando cai uma chuva fina no asfalto e congela com o frio, a estrada vira uma pista de patinação. Acelere o seu Astra nessas condições e você vai ver onde vai parar……rs
      Abraços

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