Novas descobertas em Cuba, agora pelo interior e pelas praias do país.

Deixamos o centro agitado de Havana para uma imersão em cidades mais distantes e pouco conhecidas da maioria dos turistas. É claro que, antes de partir para esta investida passamos por Varadero, famoso balneário cubano localizado apenas 140 km a leste da capital. A cidade é charmosa, muitos hotéis lotados de turistas e com preços compatíveis com outras ilhas caribenhas. O que impressiona mesmo em Varadero é a cor da água, um azul turquesa vibrante, diferente de outras praias do país. A temperatura da água é perfeita e a areia branca sem qualquer sujeira ajuda a compor este cenário paradisíaco. Aproveitamos para dar um bom mergulho e descansar um pouco da correria de Havana. Alguns vendedores ambulantes circulam pela praia oferecendo artesanatos e roupas de praia.

    

    

     

    

Conversei com um deles, era um vendedor de chapéu e cangas, se chamava Diego e não demorou muito para que me contasse mais algumas situações enfrentadas pelo povo. Quando busquei mais detalhes Diego me disse entre dentes que algumas pessoas do governo estavam nos observando e que não podia falar mais. O vendedor saiu rapidamente e seguiu caminhando pela praia. Fiquei um pouco confuso com aquela situação e tentei descobrir onde estariam estas pessoas nos vigiando. Olhando para um hotel à beira da praia, constatei que dois senhores a paisano, observavam os acontecimentos na praia. Isto é Cuba, prazeres e vigilâncias andam lado a lado. À tarde, passeamos pelas ruas de Varadero, onde restaurantes, cafés e lojas, todas pertencem ao estado.

    

     

    

A estrutura impressiona, em alguns momentos questionamos se estávamos realmente em Cuba. Nas vielas da cidade, placas anunciam quartos e casas para alugar a preços convidativos, percebemos que isto é comum nas cidades turísticas, pois desta forma os cubanos conseguem adquirir algum dinheiro extra. Voltando a Varadero, encontramos pelas ruas: canadenses, espanhóis, russos e outras nacionalidades, rodando com pequenas motos ou carros alugados facilmente para passeios. A cidade de Varadero sempre foi famosa por receber visitantes ilustres na década de 60 e 70 e por ter se tornado local das casas de veraneio das classes mais ricas de Havana neste mesmo período. É um dos destinos mais visitados no país e realmente imperdível. Percebemos que os carros antigos daqui estão mais conservados e menos rodados. Encontramos algumas raridades passeando pelas ruas da cidade. Retornamos à Havana e no dia seguinte seguimos para outra paisagem, bem diferente das praias, a região de montanhas conhecida como Viñales. No caminho fomos parados pela polícia cubana, coisa rara de acontecer, considerando que os policiais são orientados para não incomodar os turistas. O motivo da parada não foi para verificação de documentos, na verdade o policial nos pediu que levássemos um motorista até a próxima cidade, pois seu carro havia quebrado a caminho de Havana. Sem problemas, levamos o cubano conosco, assim conversamos e conhecemos um pouco mais sobre a vida das pessoas. Na região que antecede os Viñales, conhecida como Pinar del Rio, está boa parte das plantações do tabaco utilizado na confecção dos charutos cubanos, chamados aqui de “puros”. Cuba retém há décadas o título de melhor produtor de charutos do mundo, o motivo deste sucesso são vários: as condições climáticas, incidência solar, temperatura, umidade e solos férteis. Piñar del Rio, é a única região de Cuba que produz os charutos chamados de “havanos” (qualquer charuto produzido fora dessa região não recebe essa qualificação). O nome charuto, “cigar” em inglês, provavelmente deriva da palavra maia “Sikar”. Coincidência ou força do destino estava em nossos planos conhecer a fundo estas plantações e nosso passageiro era especialista no assunto. Acabamos por convidá-lo para nos acompanhar e mostrar todo o processo de plantio e secagem do tabaco. Tivemos muita sorte, Dennis nos mostrou fazendas que dificilmente chegaríamos por conta própria. O garoto é conhecido na região do tabaco por dirigir os caminhões de uma cooperativa que levam matéria prima para Havana. Visitamos algumas fazendas, vendo de perto todo o processo. Dennis nos explicava detalhadamente cada passo, com a ajuda dos agricultores. Os trabalhadores também nos receberam muito bem, adoram o povo brasileiro. No final, fomos presenteados com alguns charutos, feitos artesanalmente pelos agricultores e seguimos viagem.

     

      

    

    

    

    

Dennis, o nosso guia, seguiu conosco em direção aos Viñales e vocês podem achar que é mentira, mas Dennis vestia uma camisa xadrez e por baixo ele estava com uma camiseta amarela do Brasil com o mapa no peito !!! Deixamos as coincidência de lado e continuamos nosso roteiro. As montanhas faziam parte da paisagem e pela janela muito verde, áreas rurais onde campesinos cultivam a terra.  Os majestosos rochedos chamados de “mogotes” estão presentes no cenário. Os mogotes são formações rochosas que eclodem do solo com um misto de imponência e delicadeza. As suas encostas, totalmente verticais se destacam no vasto solo verde como monumentos naturais. O Vale dos Viñales é assim, simpático e bem cuidado, uma pequena vila rural distante da confusão urbana da capital Havana. A melhor imagem da região está no mirante do Hotel Los Jasmines, uma vista panorâmica das montanhas.

    

    

    

Depois deste clima de montanha partimos novamente para o litoral, desta vez bem mais distante da capital. Percorremos cerca de 350 km pela estada Nacional 1, com poucos veículos e alguns caminhões pelo caminho. Nosso destino agora era Cayo Santa Maria, outro paraíso de praias cristalinas, recheados de hotéis. Atravessamos um extenso trecho por uma estrada salpicada de mangues e em outros momentos pelo mar. O lugar parece deserto, cruzamos apenas alguns ônibus com turistas e outros com trabalhadores dos hotéis. Não tínhamos muitas informações do lugar e viajamos sem reserva em hotéis. Mais uma vez, nos surpreendemos com a região que conta com cerca de 12 resorts do tipo “All Inclusive” e lotado de turistas. Por sorte, encontramos uma vaga num dos hotéis que aplicam tarifas abusivas no balcão. As agências trabalham praticamente organizando tudo para os turistas, desta forma os preços são bem melhores. O ideal quando se viaja para Cuba é fechar um pacote já com tudo organizado, assim os custos de hotel e transportes sairão no mínimo à metade do que você pagaria viajando sem reservas. A região é belíssima, a comida mesmo sendo um grande buffet nas 3 refeições, tem altos e baixos na qualidade.

     

     

     

A maioria dos hóspedes são canadenses e russos. O mais incrível é que não existem casas, somente os hotéis, todos do governo. Outros 5 hotéis estão sendo construídos em ritmo acelerado e de cima de um pequeno mirante a visão que temos é de estar em qualquer outra ilha do Caribe, menos em Cuba. Ficamos apenas 2 dias no Cayo Santa Maria curtindo as praias maravilhosas e voltamos para Havana passando pelas pequenas cidades no caminho.  Logo nas primeiras cidades nos deparamos com imagens que contrastam com todo luxo e riqueza dos hotéis do Cayo.  Na cidade de Santa Clara, um monumento homenagea Che Guevara. A cidade foi palco de uma das batalhas lideradas por ele na e’poca da revolução.

    

        

Foi interessante conhecer esta outra face do turismo cubano, nos surpreendeu ver este grande complexo turístico tão próspero e distante da capital. Ficamos mais alguns dias em Havana e aproveitamos para sentir o verdadeiro ritmo de Cuba no Social Club, sensacional ouvir os cantores juntos com dançarinos mostrando a essência musical do país. Também aproveitamos para confeir um legítimo “charuteiro”, confeccionando charutos para clientes num hotel de Havana. Foi incrível aprender um pouco de toda história dos tradicionais havanos, considerados os melhores do mundo.

    

     

    

     

No dia seguinte organizamos nossa bagagem e seguimos para o aeroporto com destino as Ilhas Caymans novamente. Partimos de Cuba pensativos e convictos de que nossas vidas jamais serão as mesmas. Percebemos que o país necessita novamente de uma revolução e que o embargo americano atual já não faz o menor sentido. É verdade que todos têm direito a comida (pouca e racionada, mas têm), não se paga por educação e o sistema de saúde conta com profissionais especialistas altamente qualificados e reconhecidos mundialmente. Cuba tem das mais altas taxas de literacia do mundo e erradicou quase totalmente o analfabetismo entre os seus cidadãos. As mudanças no país parecem estar a caminho. No discurso do quinquagésimo aniversário da “Revolução Cubana”, Raul Castro, irmão de Fidel, afirmou, entre outras coisas, que a gratuidade do sistema não poderia ser mantida para todos, fato que, por si só, colide com a suprema máxima do socialismo cubano da igualdade entre todos. O turismo está acelerado, gerando muitas divisas ao governo. Os cubanos já têm televisão, celulares, mas internet ainda é para poucos e muito controlada.  Já é possível fazer reformas e obras nas suas casas, mas ainda não existe o conceito de propriedade privada. Os cubanos passam por privações de todos os tipos, entre elas a mais valiosa, a liberdade. Cuba é mesmo um país intrigante, as cidades são decadentes e belas ao mesmo tempo, o povo, às vezes simpático, às vezes apático, um mistura de sentimentos paira no ar. Em algumas esquinas ecoa o ritmo da música, em outras a dificuldade de se viver sem ambições, tudo isto faz deste país uma visita valiosa e inesquecível para todos os viajantes.   

 

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Category : Diário de Bordo

2 Comentários → “Novas descobertas em Cuba, agora pelo interior e pelas praias do país.”


  1. Edmê Figueira

    6 Anos ago

    Show ……….

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  2. Nadja Sampaio

    6 Anos ago

    Oi, Edu,

    Ao ler este post me lembrei da minha viagem à Cuba, muito antes, em 1998. Passei pelos mesmos lugares que você, incluindo Viñales e Pinar del Rio (claro que não tive um guia personalizado como você..). E o impressionante foi que o que te chamou a atenção no povo, na vida da ilha foi exatamente o que também me despertou atenção. Ou seja, tantos anos e nada mudou. Bem, quando eu fui não havia celulares, ligar era uma dificuldade enorme. O computador da empresa aérea era uma coisa rudimentar…Mas de resto, o cenário é o mesmo e as dicotomias continuam. Fiquei com saudades, foi uma viagem marcante e inesquecível. Obrigada por me fazer sentir de novo as mesmas emoções ao ler seu texto e ver suas fotos…

    abraços no casal,

    Nadja

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